Chicago, final da década de 1970. Um subúrbio de classe média chamado Norwood Park. As ruas são arborizadas, as casas são simétricas e os vizinhos se conhecem pelo nome. É o tipo de lugar onde o sonho americano parece ter se materializado em tijolos, gramados bem cortados e churrascos de domingo. No número 8213 da West Summerdale Avenue, mora um homem que personifica esse ideal. Ele é um empresário de sucesso, um membro ativo do partido político local e alguém que passa seus fins de semana vestido como palhaço, animando crianças em hospitais e eventos de caridade. O nome dele é John Wayne Gacy.
Mas, à medida que os anos de 1977 e 1978 avançavam, um problema peculiar começou a incomodar os convidados que frequentavam as festas luxuosas de Gacy. Um odor. Um cheiro doce, denso e terrivelmente pútrido que parecia emanar das saídas de ar da casa. Gacy, sempre carismático, explicava com facilidade: era umidade, ou talvez o acúmulo de sujeira no espaço de rastejamento embaixo da casa. Ele até jogou cal e litros de desinfetante no local. A maioria sorria, aceitava a bebida oferecida e ignorava o cheiro.
O que eles não sabiam, o que o país inteiro estava prestes a descobrir de forma horripilante, era que aquele odor não era umidade. Era o cheiro da morte. Sob o assoalho onde aquelas pessoas dançavam e riam, sob a casa do cidadão modelo, havia um cemitério clandestino.
Mergulharemos na mente e nos crimes de um dos assassinos em série mais prolíficos e perturbadores da história dos Estados Unidos. Um caso que destruiu a ilusão de segurança dos subúrbios e que, até hoje, ecoa como um lembrete sombrio de que os piores monstros raramente se escondem nas sombras; eles muitas vezes estão sorrindo para você, à luz do dia.
Chicago nos Anos 70: O Cenário Ideal para um Predador
Para entender como John Wayne Gacy conseguiu agir impunemente por tanto tempo, precisamos voltar no tempo e compreender o cenário dos Estados Unidos, e mais especificamente de Chicago, na década de 1970.
A América vivia um período de ressaca pós-Guerra do Vietnã e de profundas transformações sociais. A economia enfrentava solavancos, e as taxas de desemprego flutuavam. Para muitos jovens, especialmente adolescentes de famílias de baixa renda ou desestruturadas, a vida era uma busca constante por oportunidades. Era uma época em que pedir carona nas estradas ainda era uma prática incrivelmente comum e socialmente aceita. Jovens saíam de casa com uma mochila nas costas buscando trabalho, independência ou apenas uma fuga de lares abusivos.
Nesse contexto, a polícia lidava com milhares de relatórios de adolescentes fugindo de casa todos os anos. A cultura policial e o sistema legal da época tinham uma falha trágica: quando um adolescente mais velho ou um jovem adulto desaparecia, a presunção imediata, e muitas vezes a única linha de investigação, era a de que ele havia fugido por vontade própria. Não existiam bancos de dados nacionais integrados de pessoas desaparecidas, nem análises de DNA ou rastreamento de celulares. Se um jovem desaparecesse de uma rua em Chicago, a menos que houvesse uma poça de sangue ou uma testemunha ocular de um sequestro, o caso era frequentemente arquivado em uma gaveta sob a etiqueta de “fugitivo”.
Chicago era uma cidade vibrante, mas com áreas duras. Os jovens frequentemente se aglomeravam em locais conhecidos como o “Bughouse Square”, buscando bicos, trabalhos informais na construção civil ou, em alguns casos, prostituição de sobrevivência. Foi exatamente nessas frestas do sistema social, nessa vulnerabilidade invisível aos olhos das autoridades, que um predador encontrou seu campo de caça ideal. Gacy não escolheu vítimas que causariam comoção imediata da alta sociedade; ele escolheu jovens que a sociedade dos anos 70 estava condicionada a esquecer.
A Forja do Psicopata: O Peso da Rejeição na Infância

John Wayne Gacy Jr. nasceu em 17 de março de 1942, em Chicago, Illinois. Para entender o homem no corredor da morte, os psiquiatras e criminologistas frequentemente voltaram os olhos para as paredes da casa onde ele cresceu. A família Gacy parecia, por fora, uma família operária tradicional.

A mãe, Marion, era uma mulher descrita como carinhosa e protetora, mas extremamente submissa. O patriarca, John Stanley Gacy, era um mecânico e um veterano da Primeira Guerra Mundial. Ele também era um alcoólatra severo e fisicamente abusivo.
A relação de Gacy com o pai é o pilar central de quase todas as análises psicológicas de sua vida. John Stanley era um homem que exigia masculinidade bruta de seu filho e que raramente, ou nunca, demonstrava afeto. Pelo contrário, o ambiente doméstico era um campo minado de humilhações. O pai frequentemente espancava Gacy com um cinto de couro, muitas vezes por infrações mínimas ou imaginárias. Mais do que a dor física, havia a destruição psicológica: John Stanley chamava o filho constantemente de “maricas”, “burro” e afirmava que ele nunca seria “um homem de verdade”. Gacy cresceu desesperado pela aprovação de um pai que o desprezava ativamente.

Fisicamente, a infância de Gacy foi marcada por problemas. Ele nasceu com um problema cardíaco não diagnosticado inicialmente e, aos 11 anos, após ser atingido na cabeça por um balanço, desenvolveu um coágulo sanguíneo que não foi tratado por anos. Isso resultava em desmaios frequentes e convulsões, o que apenas aumentava a ira e o escárnio de seu pai, que via os episódios médicos como sinais de fraqueza para evitar o trabalho.
Apesar da turbulência em casa, no ambiente escolar e social externo, Gacy não era o típico solitário isolado que muitas vezes vemos na gênese de outros serial killers. Ele era medíocre nos estudos, mas esforçava-se para ser sociável. Ele queria ser notado, queria liderar e queria agradar. Esse desejo desesperado de projetar uma imagem de controle, sucesso e normalidade social, a necessidade visceral de provar que seu pai estava errado, seria a máscara que ele usaria pelo resto da vida.

A Máscara do Cidadão de Bem (e a Primeira Queda)
A entrada de Gacy na vida adulta foi marcada por uma tentativa frenética de construir o “sonho americano” que o validaria. Ele se mudou brevemente para Las Vegas, trabalhou em uma funerária, um detalhe que muitos consideram macabro em retrospecto, embora na época fosse apenas um emprego, e depois retornou a Illinois, onde entrou para uma faculdade de administração de empresas.
Na década de 1960, ele conheceu e se casou com Marlynn Myers. O pai de Marlynn era dono de várias franquias do Kentucky Fried Chicken (KFC) em Waterloo, Iowa, e ofereceu a Gacy a oportunidade de gerenciar os restaurantes. Gacy abraçou a oportunidade. Ele e Marlynn mudaram-se para o Iowa, tiveram dois filhos, e Gacy se tornou o gerente perfeito. Ele trabalhava horas a fio, aumentou os lucros da franquia e se integrou profundamente à comunidade local. Ingressou no Jaycees (Câmara Júnior), um grupo de liderança cívica, onde rapidamente ascendeu a vice-presidente. Ele era o vizinho que organizava desfiles, o homem que conhecia os prefeitos. Ele finalmente havia se tornado o “homem de sucesso”.
Mas a fachada começou a ruir. Por trás das portas fechadas do restaurante e de sua casa, o comportamento de Gacy se tornava obscuro. Ele começou a demonstrar um interesse inadequado pelos rapazes adolescentes que empregava no KFC. Havia rumores e pequenos incidentes, até que, em 1968, a verdade não pôde mais ser contida. Gacy foi acusado e condenado por sodomia, após forçar um adolescente que trabalhava para ele a atos sexuais, usando coerção e promessas de promoção.
Ele foi sentenciado a 10 anos de prisão na Penitenciária Estadual de Anamosa, em Iowa. Sua vida perfeita desmoronou: sua esposa pediu o divórcio e seu pai, já doente, morreu no Natal de 1969, sem nunca ter se reconciliado com o filho, levando para o túmulo a vergonha pública que o filho causara.
Dentro da prisão, no entanto, Gacy mostrou sua resiliência manipuladora. Ele não se tornou uma vítima do sistema prisional; ele o gerenciou. Foi considerado um preso modelo, trabalhou nas cozinhas, ajudou a construir um campo de minigolfe para os detentos e fez amizade com os guardas e o diretor. Por causa desse “bom comportamento”, a monstruosidade que habitava dentro dele foi ignorada pelas juntas de liberdade condicional. Após cumprir apenas 18 meses de sua sentença de 10 anos, John Wayne Gacy foi libertado em condicional em 1970.
Ele retornou a Chicago, em liberdade. Casou-se novamente, desta vez com Carole Hoff, e usou suas habilidades de negócios para fundar a PDM Contractors, uma empresa de reformas e construção. Ele comprou a infame casa na West Summerdale Avenue. Ele entrou para o partido político local e até tirou fotos com figuras proeminentes, incluindo a então primeira-dama Rosalynn Carter. E, nas horas vagas, desenhou sua própria maquiagem, vestiu um traje colorido e se tornou o “Palhaço Pogo”.
Aos olhos de Chicago, o empresário de sucesso havia renascido das cinzas. O sistema havia funcionado, o homem estava reabilitado. Mas a prisão não havia curado Gacy; havia apenas lhe ensinado a ser mais cuidadoso, mais calculista e muito, muito mais letal.